sexta-feira, 18 de maio de 2012

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.
DRUMMOND

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ora!

Um tempo atrás tinha muito o que falar
Hoje não sei onde, amanhã tanto faz
Dias empolgantes, noites em claro
Observo sem interferência
Que eu queria ser o mesmo
Não mudei, só perdi a fantasia
Faço algumas anotações
Com a única certeza:
Tanto faz!

Agora
Todo grito é entendido socorro
E todas as respostas são: eu te amo
Tanto faz!

Obsolescência

Havia apenas um plano
Havia apenas uma chance
Havia apenas um medo
Que descontrolado
Tornou-se rei da razão

esperando, esperando...

Eu acordei, e com a cara amassada do sono fui pro centro, no único bar da cidade, muitas mesas vazias sobre olhares despreocupados, lustres baixos com uma única lâmpada amarelada formando uma abóboda de bronze sobre os bohêmios, pedi vodca e refrigerante, ascendi um cigarro e deixei o cinzeiro a minha frente fazendo a fumaça subir frente ao meu rosto como se eu estivesse na proteção de uma trincheira, pálpebras caídas, pensamento em marcha lenta, sono.
Passei o tempo tranqüilo, como passa um pescador.O único bar da cidade, se ela fosse à algum lugar viria pra cá, se ela não aparecer, repito a vodca com refrigerante algumas vezes a mais de que o desejado nesse momento.
Era uma espera inábil, repentina despretensiosa?
Estava lá e logo descobriria.
Porquê? E o sucesso deste porque ou não.
Passou-se uma hora, e o rapaz da voz e violão acertava as músicas que minha alma suplicava, a vodca derretia o gelo com densa ternura, o cinzeiro se enchendo com as bitucas de cigarros fumados ansiosamente pela metade. Ela não aparecia ao penar da segunda hora que batia quase certeiramente com a meia-noite, eu já não precisava mais dizer o que queria ao garçom, apenas um gesto e mais vodca com refrigerante.
Passando do limite alcoólico estipulado para boas e lúcidas relações sociais com qualquer ser, o vulto mágico dela aparece na porta do bar, mirando uma cadeira vazia, com toda certeza me viu disfarçando olhares para as paredes com cara de poucos amigos amassada do sono, da vodca, da espera, escondido atrás da fumaça do cigarro como um soldado amedontrado, sem certeza de segurança numa guerra boba de não-sabemos-o-quê.
Eu não sabia o quê?
Ou pra quê?
E tinha esperado a ponto de ficar ranzinza?
Como se ela estivesse atrasada?
E estava, só não sabia disso.
Levantei com a certeza de que esse era o momento certo,só não sabia do que. Apoie-me sobre a mesa dela,virei o rosto, não queria cortejar seus olhos, não queria que ela me visse cortejar seus olhos, não queria dizer e disse com tom que confundia uma promessa e uma ameaça:
-Vou bater na tua janela, pela madrugada, esteja pronta pra vir comigo, se não hoje, muito...muito em breve...
Dei as costas, ela deu de ombros, sai com passos largos e bêbados dali imediatamente, com passos satisfeitos e desesperados, esperando que ela me chamasse de volta ao me aproximar da porta, esperando que ela viesse até a porta gritar contra a minha partida, esperando morrer ao chegar em casa e por toda aquela vodca, esperando que ao menos chegasse em casa para morrer.
Ela teve uma noite suave, breve e só, mirando a cadeira vazia e um copo pela metade, e ficou lá mirando a mesa até mais nenhuma fumaça subir do cinzeiro, não, ele não estava atrás da fumaça, então aquele fantasma da noite, que lhe falou como quem lhe roga uma praga, era real, era ele.
Pediu a conta, certificou-se quanto a mesa dele e ia embora, esperando que ele voltasse ao se aproximar da porta, esperando que ele a esperasse do lado de fora, desejando que ele morresse quando se certificou da sua partida.
Ele foi embora, sabendo que não passava de uma ameaça, sabendo que não cumpriria a promessa, sabendo que se quer sabia qual das janelas era a do quarto dela, e que mesmo que soubesse, mesmo que ele batesse na janela certa, mesmo que ela abrisse após se certificar que era ele pelas frestas da veneziana, mesmo que isso acontecesse, seria o mesmo de tanto mesmo, seria mais nada de tanto nada.
Ir embora esperando que ela me chamasse de volta, chegar em casa esperando morrer.
Ela ficava atenta à janela, algumas vezes pensou ter ouvida algumas batidas, espiava por entre a veneziana, apreciava a trilha sonora “...come as you are as you where as na old enemy...”, aguardava o resto da madrugada que as batidas na janela fossem mais do que o que sua cabeça estava a proporcionar.
Não era ele e nunca seria.
O desejo ambíguo letal reservado para casa dele havia sido concedido.
Mais uma vez você adormece com a minha admiração, meu olhar encantado, acesso, meu sono não vem, me ajeito, sem jeito, sem querer te acordar, querendo ver-te despertar, nem que seja para perguntar as horas, sempre é cedo, sempre é tarde, é sempre melhor estar dormindo, eu sigo acordado controlando cada passo do teu sono insensato, querendo ver-te despertar, mesmo que seja para implicar com os porquês de eu não ter adormecido ainda, sigo ainda, ainda mais e mais ainda, acordado, sonâmbulo, ansioso para te ver despertar, nem que seja para contar dos teus sonhos esquizofrênicos, é feliz enquanto sonha, sou feliz enquanto distorço a realidade, mas eu quero vê-la acordar, simplesmente porque eu não consigo dormir.
Essa calmaria toda
Fez-te bem a cegueira
Ás vezes ainda range os dentes
Ainda prende o grito
Aprende no silêncio
Consente, condiz
continua observando
Apesar de tanto resistir
Ao de penar de sua consciência
omitindo tudo que sente
Declare-se vivo
Mesmo em decadência
As falas, os olhares, seu caminhar
Segue em contumácia
tanta discrição,
que o espelho não defini seu reflexo
Não era assim que queria sentir
Não era isso que queria dizer
Só silêncio pra ouvir
Só a sombra pra acompanhar
Essa calmaria toda
Fez-te bem o silêncio
Ás vezes ainda grita muito
mas só quando sabe que ninguém vai ouvir
melhor assim...
melhor assim...
Que faz tempo e o tempo esse muito bem feito por tanto tempo
que passa,
que incansável,
procuro o monstruoso enregelar
que me causava qualquer pergunta indiscreta
seguido do olhar atencioso ao mínimo tremer de sobrancelha para
que no fim eu parecesse o mais feliz dos tolos,
sentindo coisa nenhuma tão adorável, como a sensação da primeira vez
que um cachorro te lambe a boca e você está ciente disso,
afável nos lábios ainda sem jeito de não saber:
Ri de mim ou para mim?
Que só se quer chamar atenção,
Que de repente é necessário ser o palhaço para tal feito e
Que mais de repente ainda tornou-se o palhaço
enquanto ainda tentava ser o palhaço e
Que agora já se tornou um circo inteiro;
Que a atenção é sua, a sensação é de
que o cachorro ficou histérico e te lambe sem parar,
que você está tão pasmo e tão ermo focado naquele foco focado para você
que nem se quer percebeu que o circo pega fogo,
que então se fora seu último ato,
que não há cartas na manga,
que nem mangas você tem, mas
que a atenção, a tão sonhada atenção continua,
que agora o cachorro lambe as suas feridas.
Ri de mim ou para mim?
Ri de si e para si.
Que poderia ser seu se você é a atenção ou mera pena que recebe?
Que tire o nariz vermelho
Que chute o cachorro
Deus! O maldito cachorro
Precisando chore um pouco
E tome uns tragos
Que deixe o circo queimar
Que o amor renasce das cinzas

Medo

Escuro.
Faz-se noite.
As sombras se distorcem,
projetam pesadelos.
Ruínas antigas.
Desconhecido.
Paralisia cerebral.
Pulsação galopante.
Esconderijo protetor,
cabeça sob a coberta.
Assovio do vento,
respiração ofegante.
Pés debaixo da coberta.
Trajetória de fuga.
Grito sem voz,
vontade de gritar mas sem coragem.
Acaba o sono.
Começa a tortura.
Desencadeiam-se assombrações.
Se pudesse ascender a luz.
Trevas debaixo da cama.
Pequena oração.
Nenhuma garantia.
Cansaço vencendo o medo.
Adormecendo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

verso

Quando eu arrisco um verso
ás vezes começo pelo avesso
primeiro reclamo do tombo
depois falo do tropeço.
Invento, critico, confesso
mas meu deus eu quero o perdão primeiro
porque eu adoeço e nunca sei porque
mas essas consequências sempre tem pedras nas mãos

Eu começo o verso
ás vezes por sentir, outras por entender
e nunca é verdade, mas poderia ser
tanta coisa poderia, mas sempre é tarde
é sempre longe
eu entendo a distância e eu sinto a saudade
e já não sei bem como mentir