segunda-feira, 7 de maio de 2012

esperando, esperando...

Eu acordei, e com a cara amassada do sono fui pro centro, no único bar da cidade, muitas mesas vazias sobre olhares despreocupados, lustres baixos com uma única lâmpada amarelada formando uma abóboda de bronze sobre os bohêmios, pedi vodca e refrigerante, ascendi um cigarro e deixei o cinzeiro a minha frente fazendo a fumaça subir frente ao meu rosto como se eu estivesse na proteção de uma trincheira, pálpebras caídas, pensamento em marcha lenta, sono.
Passei o tempo tranqüilo, como passa um pescador.O único bar da cidade, se ela fosse à algum lugar viria pra cá, se ela não aparecer, repito a vodca com refrigerante algumas vezes a mais de que o desejado nesse momento.
Era uma espera inábil, repentina despretensiosa?
Estava lá e logo descobriria.
Porquê? E o sucesso deste porque ou não.
Passou-se uma hora, e o rapaz da voz e violão acertava as músicas que minha alma suplicava, a vodca derretia o gelo com densa ternura, o cinzeiro se enchendo com as bitucas de cigarros fumados ansiosamente pela metade. Ela não aparecia ao penar da segunda hora que batia quase certeiramente com a meia-noite, eu já não precisava mais dizer o que queria ao garçom, apenas um gesto e mais vodca com refrigerante.
Passando do limite alcoólico estipulado para boas e lúcidas relações sociais com qualquer ser, o vulto mágico dela aparece na porta do bar, mirando uma cadeira vazia, com toda certeza me viu disfarçando olhares para as paredes com cara de poucos amigos amassada do sono, da vodca, da espera, escondido atrás da fumaça do cigarro como um soldado amedontrado, sem certeza de segurança numa guerra boba de não-sabemos-o-quê.
Eu não sabia o quê?
Ou pra quê?
E tinha esperado a ponto de ficar ranzinza?
Como se ela estivesse atrasada?
E estava, só não sabia disso.
Levantei com a certeza de que esse era o momento certo,só não sabia do que. Apoie-me sobre a mesa dela,virei o rosto, não queria cortejar seus olhos, não queria que ela me visse cortejar seus olhos, não queria dizer e disse com tom que confundia uma promessa e uma ameaça:
-Vou bater na tua janela, pela madrugada, esteja pronta pra vir comigo, se não hoje, muito...muito em breve...
Dei as costas, ela deu de ombros, sai com passos largos e bêbados dali imediatamente, com passos satisfeitos e desesperados, esperando que ela me chamasse de volta ao me aproximar da porta, esperando que ela viesse até a porta gritar contra a minha partida, esperando morrer ao chegar em casa e por toda aquela vodca, esperando que ao menos chegasse em casa para morrer.
Ela teve uma noite suave, breve e só, mirando a cadeira vazia e um copo pela metade, e ficou lá mirando a mesa até mais nenhuma fumaça subir do cinzeiro, não, ele não estava atrás da fumaça, então aquele fantasma da noite, que lhe falou como quem lhe roga uma praga, era real, era ele.
Pediu a conta, certificou-se quanto a mesa dele e ia embora, esperando que ele voltasse ao se aproximar da porta, esperando que ele a esperasse do lado de fora, desejando que ele morresse quando se certificou da sua partida.
Ele foi embora, sabendo que não passava de uma ameaça, sabendo que não cumpriria a promessa, sabendo que se quer sabia qual das janelas era a do quarto dela, e que mesmo que soubesse, mesmo que ele batesse na janela certa, mesmo que ela abrisse após se certificar que era ele pelas frestas da veneziana, mesmo que isso acontecesse, seria o mesmo de tanto mesmo, seria mais nada de tanto nada.
Ir embora esperando que ela me chamasse de volta, chegar em casa esperando morrer.
Ela ficava atenta à janela, algumas vezes pensou ter ouvida algumas batidas, espiava por entre a veneziana, apreciava a trilha sonora “...come as you are as you where as na old enemy...”, aguardava o resto da madrugada que as batidas na janela fossem mais do que o que sua cabeça estava a proporcionar.
Não era ele e nunca seria.
O desejo ambíguo letal reservado para casa dele havia sido concedido.

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