terça-feira, 27 de outubro de 2015

Toquei violão até os dedos ficarem dormentes! É domingo meu bem! Sabe? Não se pode fazer muito! Tentei meditar de manhã; uma receita comprovada de um amigo; nada aconteceu; como na previsão não consegui me levar a sério; foi uma merda; era isso que deveria ser; está tudo certo, uma merda não tão diferente das outras. Eu sabia que devia ter feito mais por mim, mas tenho feito tanta coisa por mim que é normal algo ficar esquecido; tem algo que quero fazer e não faço; nós somos cheios desses nós, que nós mesmos damos e não desfazemos, apesar de que somos capazes. Aumenta o calor; a capital não é tão bonita de dentro; não é tão diferente dos lugares que eu conheço; nada é tão bonito por dentro, mas a gente fantasia que outras coisas são melhores; maldito dia que estamos dentro dessas coisas; maldito dia que comecei a meditar. “Cinco minutos” ele me pediu, e cinco minutos pareciam uma bobagem (que infinita bobagem em que me enfiei), olhei o relógio e não havia se passado um minuto. Enfim, essa é a tortura de ficar sozinho comigo e me observar; mesmo sem análise, me percebo um empecilho. A parede branca, tão mais bege do que branca, de um banheiro, de uma construção com mais de sessenta anos, se transformou num espelho no qual me via, aliás, não tenho me notado no meu dia, e foi, além de constrangedor, um terror me perceber.
O amigo me disse “não é para pensar, é para observar”; sabe? Tive um medo devorador da observação de mim, mas lá estava eu, sentado no chão do banheiro, de frente a uma parede branca, de front a mim, quando, de súbito, me senti vivo na minha respiração; no reflexo não visto daquela parede algo me olhava de volta e talvez fosse eu mesmo, e talvez a gente não queira se ver assim como alguém rastejando por si próprio ou como um desconhecido que tenta nos descobrir um segredo; eu queria olhar o relógio, talvez não devesse; eu não queria me ver, talvez devesse; talvez a merda seja maior. “Observar”, ele disse. Continuei respirando e percebo que não tenho destreza, nem se quer pra isso. O relógio é um inimigo, amanhã ele não virá junto. Falta um minuto e eu penso que ele não vai fazer diferença, aí penso quanta coisa eu terminei precocemente, quanta coisa nessa vida podia ter feito diferença, mas troquei um minuto por nada além de nada, eu troquei muitas coisas no fim pelo fim de muitas coisas; sabe? Eu desisto, não tenho paciência! Eu não tenho disciplina! Contudo, eu queria terminar esses cinco minutos; eu acho que observei demais o relógio; eu acho que pensei demais: “se for uma merda, é isso”, foi o que ele disse.
Percebi que não estou mais olhando a parede, que não percebo mais minha respiração, e só respiro pela inerente condição de manter os sistemas, mas não percebo nada mais; aliás, deve ser isso. Aliás, se passaram os cinco minutos, sem nenhuma lição ou algo de diferente, só um ódio do relógio e o pensamento de que preciso lavar as paredes do banheiro; só a sensação de que não devia voltar a meditar amanhã. “Observa cara, é disciplina que te falta”, sim eu sei e uma parede realmente branca; sabe?

terça-feira, 21 de julho de 2015

Deidara

"...As vidas carregam o tempo e esse não pode retribuir e nem faz questão. O tempo é uma constante, um gigante em inércia guardando segredos do universo num silêncio absoluto; sabe bem como é que tudo começou e um dia ainda vai ver o fim, se é que o destino não gira ao contrário, e o começo estará por vir, aliás, convém acreditar, já que o suposto começo, nas mais acreditadas teorias, foi uma grande explosão. Admirando embevecido uma figueira num topo de uma colina verde, dignas das pinceladas de Monet, eu coloco os traços lúgubres cinzas de Goya por cima da história que acaba sem dar a chance de escolher como; esse é o destino: um cigarro nos lábios de um fumante sem fósforos. O meu otimismo segue mancando na falta do que me faça crer que a vida pode ser melhor que um coxo fumante sem fogo carregando um tempo ingrato nas costas.
Subo a colina com a certeza que tudo acaba melhor quando o fim foi uma decisão e não um acaso; e um pouco de psicanálise e a teoria do efeito de Bluma Zeigarnik embasam o meu pensamento: a vida segue com a sensação do inacabado, como uma música que só sabe um verso ecoando no cérebro; nesse caso, para esquecer a canção, basta cantar o final. Chego até a árvore que se mantém firme como um titã de madeira de áurea solene esperando por ser meu carrasco e, sem a destreza dos marinheiros, faço o primeiro nó, e sinto um nó no estomago e não sei bem o que sentir. Deidara era o seu nome. Dizem que o nome é só um nome, que a rosa seria uma rosa ainda que se chamasse diferente; nesse caso, Deidara é a canção de eco eterno na minha cabeça e no meu coração, que eu até sei cantar o final, mas me recuso.
Escolho um galho firme que se desprende da forma homogênea da ímpia árvore para prender a corda: a falta de destreza se confunde com a falta de vontade; me prendo a ponta solta da corda e sei que a bem poucos centímetros dos meus pés há o chão, que eu não posso tocá-lo daqui e não quero. E com os sentidos dormentes e a ansiedade dando cambotas no meu estomago fecho os olhos e suspiro seu nome: Deidara... A minha esperança foi a última a morrer, mas o meu amor ainda assombra por aí.
..."

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Olha como as coisas ficaram distantes, como ficou difícil de ver, de tocar, de sentir. Quando a gente explica, e isso é quase sempre, destina o futuro tão diferente que parece que o passado nem é um distúrbio violento, porque a gente não quer a distância; porque a gente não quer o que há. A gente não quer olhar de tão longe. E dentro de tanto querer tem o não querer que é absoluto. Ultimamente eu não quero. Outro dia passando chimia no pão, fiquei pensando em como diabos você passa a chimia no pão e que eu não fico acertando milimétricamente as bordas do pão, cheio de perfeição; em que talvez você não coma chimia, mas se quisesse comer eu passaria bem passadinho e ainda tiraria a casca do pão do jeito que não faço pra mim. Não sei como é possível, não sei como o amor possa caber nessas coisas, em uma fatia de pão com chimia, no vazio de um segundo de desatenção durante o meu café da manhã.

algumas palavras não foram inventadas ainda
e me fazem falta
eu sei o que eu sinto
e sinto sem saber do que chamar
mesmo sabendo a quem
e ás vezes toca uma música e nela eu sou
em voz alta
esses sentimentos sem nome
que não deixam de existir
por mais ninguém saber



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Eu continuava abanando
(a decepção é coisa de gente que tem tempo sobrando),
eu mantinha um sorriso
(o desespero antecede a desesperança),
e permanecia no mesmo lugar
(resignar - a fortaleza dos esquecidos).





sábado, 2 de novembro de 2013

Amo ser eu, e não saber o que é? Pra que é?
No entanto, amo a possibilidade de ser qualquer outra coisa, que não eu.
Algo que não foi pensado e que não foi sentindo, por causa de uma desatenção, ás vezes por não saber como sentir.
Como uma velha senhora, a beira do fogão a lenha, olhando pela janela, achando que chove lá fora, que esquece que chove por cima de sua cabeça
Amo ser eu, e pensar que vou morrer
amo esta morte e a condição de ficar eternizado no esquecimento
(porque os corações que me carregarem também morrerão
e serão esquecidos).
Amo quando me esqueço de algo, como se o tempo não tivesse passado por aquele instante. E a vida fica como um conto antigo, um déjà vu ou uma parede pixada que a gente vê numa viagem à capital pela janela do ônibus.
As vidas carregam o tempo e este não pode retribuir, nem faz questão.
E eu amo isto também.