Toquei violão até os dedos ficarem dormentes! É domingo meu bem! Sabe? Não se pode fazer muito! Tentei meditar de manhã; uma receita comprovada de um amigo; nada aconteceu; como na previsão não consegui me levar a sério; foi uma merda; era isso que deveria ser; está tudo certo, uma merda não tão diferente das outras. Eu sabia que devia ter feito mais por mim, mas tenho feito tanta coisa por mim que é normal algo ficar esquecido; tem algo que quero fazer e não faço; nós somos cheios desses nós, que nós mesmos damos e não desfazemos, apesar de que somos capazes. Aumenta o calor; a capital não é tão bonita de dentro; não é tão diferente dos lugares que eu conheço; nada é tão bonito por dentro, mas a gente fantasia que outras coisas são melhores; maldito dia que estamos dentro dessas coisas; maldito dia que comecei a meditar. “Cinco minutos” ele me pediu, e cinco minutos pareciam uma bobagem (que infinita bobagem em que me enfiei), olhei o relógio e não havia se passado um minuto. Enfim, essa é a tortura de ficar sozinho comigo e me observar; mesmo sem análise, me percebo um empecilho. A parede branca, tão mais bege do que branca, de um banheiro, de uma construção com mais de sessenta anos, se transformou num espelho no qual me via, aliás, não tenho me notado no meu dia, e foi, além de constrangedor, um terror me perceber.
O amigo me disse “não é para pensar, é para observar”; sabe? Tive um medo devorador da observação de mim, mas lá estava eu, sentado no chão do banheiro, de frente a uma parede branca, de front a mim, quando, de súbito, me senti vivo na minha respiração; no reflexo não visto daquela parede algo me olhava de volta e talvez fosse eu mesmo, e talvez a gente não queira se ver assim como alguém rastejando por si próprio ou como um desconhecido que tenta nos descobrir um segredo; eu queria olhar o relógio, talvez não devesse; eu não queria me ver, talvez devesse; talvez a merda seja maior. “Observar”, ele disse. Continuei respirando e percebo que não tenho destreza, nem se quer pra isso. O relógio é um inimigo, amanhã ele não virá junto. Falta um minuto e eu penso que ele não vai fazer diferença, aí penso quanta coisa eu terminei precocemente, quanta coisa nessa vida podia ter feito diferença, mas troquei um minuto por nada além de nada, eu troquei muitas coisas no fim pelo fim de muitas coisas; sabe? Eu desisto, não tenho paciência! Eu não tenho disciplina! Contudo, eu queria terminar esses cinco minutos; eu acho que observei demais o relógio; eu acho que pensei demais: “se for uma merda, é isso”, foi o que ele disse.
Percebi que não estou mais olhando a parede, que não percebo mais minha respiração, e só respiro pela inerente condição de manter os sistemas, mas não percebo nada mais; aliás, deve ser isso. Aliás, se passaram os cinco minutos, sem nenhuma lição ou algo de diferente, só um ódio do relógio e o pensamento de que preciso lavar as paredes do banheiro; só a sensação de que não devia voltar a meditar amanhã. “Observa cara, é disciplina que te falta”, sim eu sei e uma parede realmente branca; sabe?

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